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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Mulheres, jornalistas e o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa - não necessariamente nesta mesma ordem

Já passa de meia-noite e por isso já encerramos o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa. Sites como o  do Reporters Without Borders (Repórteres sem Fronteiras) ou Knight Center of Journalism registram diariamente ameaças, abusos e mortes de jornalistas por todo o mundo, com destaque para México, Venezuela, Oriente Médio, entre outros. Mas poucas são as abordagens diretas a casos de estupro e de violência a mulheres jornalistas. Lara Logan, correspondente da CBS, cobria em fevereiro a queda do ditador egípcio Hosni Mubarak, quando foi estuprada por algo entre 200 e 300 homens. Não é engano de digitação, nem de leitura, nem exagero: é realidade, triste, mas real. E é realidade também que as mulheres sofrem com essa violência muito mais do que imaginamos no Egito - considerado um país pouco afeito aos radicalismos ao ponto da própria notícia da presença de um ditador por tantos anos ter surpreendido muitos, mas obviamente é um país com abertura para ditadores e estupradores, estes de certa forma bastante tolerados. Vale, ainda, a lógica do "o que é que ela foi fazer lá", "ela 'pediu' isso", e por aí vai. E, infelizmente, o Brasil ainda considera válida essa lógica em muitos casos.

A entrevista da jornalista ao 60 minutos, da CBS promete ser a única, não só porque ainda será uma ferida aberta por algum tempo. Novas coberturas do gênero ainda serão difíceis para a profissional. Mas ela não quer virar "a repórter estuprada no Egito", quer ser sim mais uma mulher que luta para que esse tipo de atrocidade não se repita com outras, e é por isso que neste dia em que se fala de Liberdade, mais do que de Imprensa, cito a de Gênero.

A data de hoje foi resultado de uma conferência da UNESCO em 1993, mas o cenário que se pretendia divulgar para evitar a repetição ainda precisa mudar muito. A escolha também marcou uma Declaração emitida em prol da independência e liberdade de imprensa Africana.

Pois Lara Logan era Sul Africana, mas trabalhava para a americana CBS naquela data. Os relatos, para quem não domina o inglês, são bastante chocantes, e a força que ainda demonstra talvez indique inclusive que nem a ficha tenha caído totalmente. Afinal, ser "tragada" por uma multidão ensandecida que começa a gritar que iriam tirar suas calças, cumprir a promessa, afastar colegas e seguranças, ser puxada, agarrada, despida sentindo as roupas serem rasgadas e estuprada com mãos, dedos, ser fotografada nessa situação por celulares de centenas, e em menos de três meses estar à frente das câmeras novamente, conseguindo inclusive manter certa empolgação sobre o momento histórico presenciado em um dia que certamente desejaria esquecer, é, se não heróico, quase insano. Pode ter vindo dos casal de filhos a força que precisava - e cabe relatar que ela mesma diz ter agradecido a nova chance, já que ela saiu de perto deles, o eterno dilema das mulheres que "trabalham fora".

Outra parte igualmente forte é o contraste entre a cobertura e entradas ao vivo que a equipe estava fazendo, relatando a alegria do povo, quando, de repente, há um problema no equipamento, uma luz se apaga, outra, de repente ouve-se o grito da jornalista dizendo "não!" e uma escuridão toma conta do vídeo. É essa escuridão que ficou na minha memória, até mesmo porque lembro sempre de uma frase que vi escrita em uma foto de uma cela do Presídio Central de Porto Alegre anos atrás em um laudo pericial que dizia: "não esqueça que até as sombras te deixam sozinho na escuridão."

Depois desse momento é que inicia o desespero da profissional, que relatou que as demonstrações desse desespero só estimulava os agressores, que apreciaram sua dor e seguiram o estupro e puxões de cabelo, que, por pouco, não resultou em um quase escalpo.

Aos homens que que lerem esse texto, assistirem os vídeos ou virem qualquer outra referência a este fato, lembrem-se sempre do relato de impotência e desespero dos colegas homens de Lara Logan.

De qualquer forma fica aqui a reflexão e a homenagem aos colegas que trabalham mundo a fora para mostrar às pessoas tudo de bom e de ruim que o ser humano é capaz.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Continuamos INcapazes ou ainda no "otro lado del río"





Cusco em dezembro de 2009, vista do albergue na Cuesta de Santa Ana

Sabe aquele ditado que diz "cuidado com o que deseja, pode acontecer"? É o que devem estar pensando os turistas presos em Cusco, Machu Picchu e Aguas Calientes, no Peru, após as chuvas torrenciais que provocaram a elevação do nível do rio Urubamba - que em dias de chuva fraca é bastante agitado - e deslizamentos de terras que resultaram em quedas de pontes e interrupção de trilhos. Eu tive mais sorte ao fazer a mesma visita, e embora soubesse que era o início da estação das chuvas, não me assustei - e fique claro que não me arrependo e continuo recomendando apesar de tudo que vi e escrevi - pois sempre disseram ser raro chuva forte como ocorreu e que por isso mesmo surpreendeu. No entanto, isso não se aplica a quem faz trilhas, que deveria mesmo evitar o período.


Rio Urubamba, em Aguas Calientes, em um dia de chuva fina de dezembro (2009)

Acontece que no ano passado ouvi em Madri que lá é raro nevar, e neste ano também houve exceção. Culpa de São Pedro, da mãe natureza, ou nossa? E, mesmo assim, e as providências tomadas após o ocorrido, são satisfatórias?


Estação de trem onde estão os turistas (em um dia normal, dezembro 2009)



Os turistas vão sair de lá, felizmente, em segurança, ao menos a imensa maioria. Mas e a população que fica?


Caminho para Machu Picchu (dezembro 2009)



A ponte por onde passei em Pisac, caiu. Eu não vou passar, provavelmente, pelo mesmo local. As pessoas que moram lá, sim.


Trabalhadora no Vale Sagrado (dezembro 2009)



Os trilhos ligam o caminho que praticamente só os turistas fazem. Qual ficará pronto mais rápido? Talvez o povo de Pisac tenha sorte, afinal, estão no roteiro turístico. O Peru deveria, inclusive, acrescentar uma rota turística para voluntários, já que há tantos que fazem as trilhas e caminhos mais difíceis, para que estes - e também os demais, cada um de acordo com suas possibilidades - auxiliem a população local. São eles que mantêm o que está lá, o tesouro é este, pois foram pessoas assim que construíram as maravilhas que nos deslocamos para ver.



Sorte: céu aberto em Machu Picchu (dezembro 2009)


Para a população local não vi nada muito diferente do que assisti no filme "Diários de Motocicleta". Outro dia comentei, em tempos de Fórum Social Mundial, que, sim, um outro mundo é possível. Mas é lento, bem, mais lento. Em Cusco os nativos comentam em tom de piada que as construções dos Incas estão lá até hoje, e que o que cai foi obra dos INcapazes, ou seja, os colonizadores. Em último caso, após todos estes anos, somos todos incapazes de tomar cuidados, precauções, providências.







Incapazes de subir, que dirá de construir. 


Vi muita sinalização com relação a terremotos, mas nada sobre chuvas. Afinal, há décadas não acontecia nada semelhante. Mas as narrativas (aqui e aqui) dos brasileiros são reais, em Cusco, é frio à noite e pela manhã, e há precariedade em serviços como em toda a AL. Mas, novamente, os nativos vivem isso diariamente. É o "otro lado del río" chegando mais perto...



Peruana caminha sozinha em Ollataytambo - e não apenas lá. 


Sonhos e pesadelos, enfim, podem caminhar juntos. Um outro fator que pode salvar ou dar dor de cabeça à muita gente, são as companhias aéreas. Outro dia, eu mesma fazendo uma queixa porém sobre outro assunto no Juizado Especial Cível, no Foro Central, em Porto Alegre, conheci um rapaz que iria viajar nesta época a Cusco pela LAN Peru, que também utilizei. Porém, como comprou uma passagem para nativos, teria que pagar uma multa que acabava sendo maior que a passagem, e a companhia se negava a, pelo menos, cancelar a passagem, já que afinal não havia voado. Hoje esse rapaz deve estar agradecendo todo o stress sofrido. O mesmo testemunhei em casa, com uma desistência de viagem na família devido à confusão da recém instalada Taca, que possui promoções ótimas mas problemas sérios na comunicação destas promoções, o que acabou - felizmente - evitando esta viagem que estaria acontecendo bem nesta semana. Eu, particularmente, escapei da segunda. Não sei quanto tempo a sorte me acompanhará, mas me solidarizo com essas pessoas que não são turistas e que vivem essa realidade todos os dias.


Moradores do bairro do Passo, em São Borja, sofrem com a enchente 
Foto:Claudio Gottfried (Zero  Hora, 02/11/2008)

Aqui mesmo em São Paulo, no interior do RS, São Borja, região de Montenegro... para citar alguns. Esse filme eu não quero rever nas manchetes de jornais (aqui, aqui, aqui...), mas ele acaba sempre lá.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

MUHM leva exposição para o FSM 2010 e arrecada doações para vítimas do clima



O Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul (MUHM) participa das atividades do Fórum Social Mundial 2010 – edição comemorativa aos 10 anos da primeira edição – com painéis da exposição itinerante Retratos da Medicina: a História Médica do Rio Grande do Sul, que já passou por mais de 30 municípios gaúchos. A mostra estará no 4ª andar da Usina do Gasômetro de 25 a 29 de janeiro durante o horário de funcionamento das atividades do Fórum Social Mundial. 







Os visitantes podem complementar a experiência acessando de qualquer lugar com Internet os vídeos e o acervo virtual do museu no site http://www.muhm.org.br/ ou visitando o museu sua sede (na av. Independência, 270), onde pode fazer também doações para as vítimas do clima no RS e no Haiti, que posteriormente serão enviadas à Defesa Civil. A entrada para as visitações é gratuita.

A exposição itinerante Retratos da Medicina apresenta, por meio de painéis, quatro fases da história da medicina no estado: a prática médica (presença dos primeiros médicos em território gaúcho), o ensino médico (relato das primeiras escolas no Brasil e no Rio Grande do Sul), a defesa da profissão e organização sindical e os personagens da história da Medica.


O MUHM é mantido pelo Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, que também possui programação no FSM, com palestras que vão de sustentabilidade ambiental a alcoolismo sendo realizadas no seu auditório na av. Corte Real, 975, dias 27 e 28 de janeiro.

Sobre o museu

O MUHM é o primeiro do gênero no Estado e um dos raros no País, com equipamentos peculiares que fazem um retorno ao passado e contrastam com a evolução da medicina atual. O acervo conta com mais de quatro mil livros de Medicina, entre raridades nacionais e estrangeiras, centenas de objetos e amplo material digitalizado para pesquisa, composto por doações de profissionais e familiares de todo o Estado.

Atualmente o museu possui duas exposições em sua sede, que durante o horário de Verão estão abertas de 3ªs a 6ªs-feiras a partir das 12h e sábados, domingos e feriados, a partir das 15h, sempre até às 20h. Mais informações pelo fone (51) 3029-2900.

DESAFIOS: A Medicina e a luta pela vida
Aborda as transformações ao longo da História da Medicina. A busca por conhecimentos para desenvolver a saúde, combater as doenças, aliviar a dor, prolongar a vida e torná-la é mostrada em seis eixos: o conhecimento médico, os costumes, o diagnóstico, as especialidades, as causas das doenças e os tratamentos. Permite discutir questões de hábitos como o de lavar as mãos e as vacinas e seus reflexos na saúde pública. Exposição de longa duração.

Compartilhando Memórias: o MUHM e seus Doadores
A mostra homenageia aqueles que ajudaram e continuam ajudando a compor o acervo do museu, por meio de doações de objetos, livros, fotografias e outros documentos. Até abril de 2010.






terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pense no Haiti

É claro que, se por um lado, há muita gente preocupada e envolvida com a ajuda humanitária ao Haiti após a tragédia mais recente entre as diversas e históricas que o país vem sofrendo, por outro, sempre há quem lembre das mazelas nacionais e regionais, que também não são poucas, é verdade. Mas há ainda o aspecto político que ambas as visões acabam suscitando, e o aproveitamento do momento de forma bastante mesquinha, pois não é uma real preocupação com o local (nesses casos de aproveitamento). Achei muito
interessante e reproduzo o artigo veiculado hoje em Zero Hora.

"19 de janeiro de 2010 | N° 16220
ARTIGOS
A necessária solidariedade, por André Luiz Reis da Silva*
Como sabemos, uma tragédia se abateu sobre o Haiti. Além das décadas
de ditadura e de conflitos, teve de enfrentar um rigoroso terremoto,
que vitimou dezenas de milhares de pessoas e arruinou o país. Uma
tragédia que, sem uma ação rápida e forte, tem todos os ingredientes
para se transformar em uma catástrofe humana.
O Brasil, já engajado no processo de paz no Haiti, respondeu
imediatamente com envio de ajuda humanitária e será um dos líderes do
processo de reconstrução do país. Entretanto, o que é uma mostra da
vitalidade e solidariedade do governo e do povo brasileiros tem
ensejado leituras distorcidas a respeito da ajuda internacional.
Infelizmente, setores da imprensa ensaiaram um argumento acerca das
respostas dadas pelo governo federal às tragédias que se abateram em
vários pontos do Brasil em razão das enchentes provocadas pelas
chuvas. Sobretudo os representantes da imprensa gaúcha em Brasília
costumam utilizar signos e códigos farroupilhas que ainda estão
flutuando no imaginário regional acerca das relações com o governo
federal. Tal como no Império, estamos a pedir mais recursos, que não
vêm na contrapartida do nosso trabalho e contribuição da nação. Assim,
os nossos flagelados teriam sua ajuda desviada para um país distante.
Entretanto, o argumento de que a ajuda internacional desvia
necessários recursos internos de um país pobre é descabido. O Brasil
não é um país pobre. O problema é a injustiça social e a desigualdade
de renda, que se reflete na nossa cultura, nas nossas instituições e
na nossa formação econômica.
O Brasil vem crescendo diplomaticamente nos últimos anos, e o país
está se constituindo um interlocutor cada vez mais requisitado nos
fóruns internacionais. A ajuda brasileira é condizente com o papel que
o Brasil vem tendo no sistema internacional. Todos os países que têm
essa força e influência devem contribuir para a paz, a segurança, a
estabilidade e o desenvolvimento, tanto do ponto de vista político
quanto econômico e, inclusive, militar. O Brasil tem uma
responsabilidade maior que outros países sobre o Haiti, pois é o
responsável pelas tropas que procuram construir a paz num país
devastado pelos conflitos. Tem feito isso com dificuldades, mas foi,
depois de diversas experiências, a missão da ONU mais bem-sucedida no
Haiti.
Há um grande risco de que a frágil estabilidade alcançada no Haiti se
desestruture rapidamente, o que exigiria do Brasil e outros países um
rápido aumento da ajuda e de contingentes militares. Os próprios
militares que já atuam no Haiti ficariam em uma situação de
vulnerabilidade, devido à instabilidade social e ao desvio de suas
funções originais.
Assim, a política externa brasileira está em consonância com o poder e
a representatividade do Brasil no sistema internacional. E a isso
devemos nos acostumar, depois de tanto tempo com uma baixa autoestima
nacional. Cada vez mais a bandeira e a solidariedade do Brasil estarão
presentes em lugares distantes geograficamente, mas muito próximos de
nós nos sonhos e nas vicissitudes. Enfim, a mesquinharia comparativa
não condiz nem com o próprio imaginário farroupilha, adepto do
espírito solidário.

*PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA UFRGS"

Aliás este é o outro artigo que o jornal traz hoje (Eduardo Lima Silva, jornalista e perito criminalístico) tão pertinente quanto, afinal, fala de impunidade e corrupção, de cultura e educação, ou seja, dos verdadeiros inimigos da falta e desvio de recursos. Infelizmente não partilho do mesmo otimismo com relação a outubro, nem sempre pelos resultados, até, mas pelas razões... mas isso é mais complexo e para outro momento.

Trilha sonora: http://twitter.com/leticiacastro79/status/7746647249



sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

SIMERS mobiliza ajuda humanitária ao Haiti, RS e outras regiões - MUHM é ponto de doações


O Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (SIMERS), mantenedor do Museu de História da Medicina (MUHM), e o próprio museu, solidários às comunidades afetadas drasticamente pelas forças da natureza no RS, em outras regiões do Brasil e no Haiti lança Campanha de Mobilização Social. Entre as atividades previstas, está a arrecadação de donativos primordiais à saúde das pessoas envolvidas com os desastres. O presidente do SIMERS, Paulo de Argollo Mendes, cita também que já há exemplos de médicos dispostos a atuar como voluntários no atendimento a feridos no Haiti.


Doações serão encaminhadas à Defesa Civil, para que ocorram as destinações, de acordo com o cadastro das necessidades de atendimento emergencial.

 

Locais de doação: Museu de História da Medicina - Avenida Independência, 270 (Prédio Histórico do Hospital Beneficência Portuguesa de Porto Alegre), e sede do Sindicato - Rua Corte Real, 975 - na Capital. Mais informações pelo telefone (51) 3027-3784.


 

Todas as doações são muito importantes: artigos para primeiros socorros, medicamentos, alimentos não perecíveis, roupas e afins.